8.6.08

Finalmente, o final


Como ontem eu não postei nada, deixo aqui a parte três mais o término da história.


Para ler toda a história acesse aqui.

III



Ótimo, foi o que ele disse até começar a sentir um sabor amargo -a metamorfose não é fácil para
ninguém- de incisivo sobre mim, seu olhar tornou-se clemente, mas eu ansiava por reverência. Preparei a sua transformação ali mesmo na sala, tinha prometido a mim mesma que tomaria cuidado, mas aquela era uma ocasião especial.

Com os móveis deslocados para dar espaço ao corpo desnudo no meio da sala, ela começou seu ritual. De uma bolsa de couro de crocodilo, tirou uma infinidade de bisturis, pinças e colheres. Começou pelos globos oculares, retirados com o auxílio de uma estranha colher, os quais guardou num pote de vidro. E foi assim com os lábios, língua, mãos e genitais, todos guardados em potes de vidro, levados até um baú no quarto dela.

Esse será diferente, não darei o banho purificante de água sanitária, até porque acabou. Ao invés de enfurnado em meu armário, ficará aqui na sala, poderemos conversar durante o café da manhã, almoço e jantar! Não é?
-Ficarei com você pra sempre.
-Todos nós ficaremos.
-Não, só eu, os outros no armário terão de ir embora.
-Não! Eles são meus!
-Então eu é que vou sair e contar pra todos, o quanto você é infantil e que você fez tudo isso porque você é má, por que não passa de uma garotinha mimada!
-Não tio, por favor, não.
-Então seja uma boa garota, fique quietinha e não conte nada para os seus pais...
-Agora eu sou adulta, você não manda mais em mim!
E tomada pela fúria, pulou sobre o cadáver e bateu, chutou, cuspiu nele. Recuperada -ou não- se
arrastou até uma parede e lamentou-se de um modo incompreensível.

E foi nesse meu momento de distração que a menina surgiu não sei de onde, estava parada na minha frente:
-Você tem que parar com isso.
-Não até que eu tenha salvo a humanidade.
-Salvar? Olha o que você está fazendo conosco! O que fez com eles...
-Sim, olha para eles agora, transcenderam a condição de homens e não podem mais me machucar.
-Você tem que parar com isso!
-Senão?
-Senão...
-Eu acabei de derrotar nosso tio, não é uma garotinha infantil, como você é, que vai me impedir.
-Se eu sou só uma garotinha o que me diz disso?
E a pequena garotinha pegou uma faca e colocou ameaçadoramente perto do pescoço. Como mágica a mulher recuou para uma posição fetal, chorando, clamando para que a garotinha não terminasse com tudo.
......................


Epílogo

E foi assim durante alguns anos, na sua busca -e missão- encontrou mais alguns desgraçados, mas nenhum deles passou pela suas exigências, fechou-se em um ciclo de corpos, solidão, busca,
desapontamento, morte, corpos.

A presença da garotinha era cada vez mais constante, e sua consciência foi cedendo o espaço da frieza para os sentimentos, e ela tornou-se ainda mais instável, deixando de se preocupar com a técnica ou com a ordem de seu ritual. E se é que um dia se preocupou com as conseqüências, também parou de se preocupar.

Até que um dia a água sanitária não foi suficinete para o cheiro da solidão. Os vizinhos chamaram um chaveiro, e não foi preciso muito para dar início a uma complexa reação em cadeia, que incluiu policiais, legistas, parentes inconformados e até um longo julgamento.
Mas ela não voltaria para seu apartamento aquele dia.
Ela terminou o que a garotinha tinha começado.
A solidão também foi demais para ela.

FIM

2 comentários:

Victória D. disse...

Adorei esse final.
Daria um filme isso, aposto. HAHA.
Beijo.

Marcelo disse...

Gostei do final também.
Acho meio psicose (o psicopata conversando com a mãe morta) e meio Hannibal the cannibal... lembrei da cara do Anthony Hopkins... e daquele traveco assassino.