6.6.08

A continuação II


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II

O interfone toca, ela levanta correndo da cama para atender, sim, o seu namorado chegou, ela reza todos os dias pedindo que ele não seja como os outros.
-Sim, ele pode subir sim.
Fechando o closet olha uma última vez para os dois corpos mutilados que exalam um forte cheiro de água sanitária e cadaverina. A ausência dos lábios e olhos lhes dão um aspecto confuso e ao mesmo tempo sorridente. Parecem contemplar a sua algoz.

A campainha. Espero que ele tenha trazido um presente... E vou correndo atender a porta.

E passando pelo grande espelho da sala, tem mais uma chance de retocar o cabelo e garantir uma boa aparência, de lado as fendas do vestido vermelho deixam aparecer uma tatuagem que se estende pelas costas num padrão de escamas na cor preta. Nota alguns pingos vermelhos no espelho que devem ter escapado à sua limpeza.

Atendo a porta, ele sorri com um ramalhete de rosas, nos cumprimentamos sutilmente, ele é diferente, eu sei, ele não tenta nada sujo, sua mente é pura e pensa por ela mesma. Convido-o para entrar e o levo à mesa previamente preparada, um jantar romântico, mas que ele não tente nada, pois além do frango marroquino no forno, um pudim de estricnina espera na geladeira por uma brincadeira sem graça. Abro uma garrafa de vinho, só tomando o cuidado de não beber em demasia.
-O frango estava ótimo! Surpreendente que você seja uma cozinheira.
-Por quê?
-Achei que sua vida fosse só trabalho.
Ele trabalha comigo no escritório, num cargo inferior ao meu...e essa opinião não deve ser apenas dele.
-E agora, o que a minha gerente preparou pra depois?
Minha? O que é isso agora? Ele trabalha o dia inteiro num cubículo com trabalho burocrático e é melhor que a gerente, é superior?
-Sua... Gerente?
-Ah meu amor, eu sei que você deve gostar dessas coisas de dominação e tudo mais...
-Você quer saber o que vem depois?
-Quero!
-Você gosta de pudim?
................


Só um adendo II

Ontem eu vi uma notícia que me impressionou, a polícia libertou vários trabalhadores que viviam em regime de semi-escravidão: sem carteira assinada, sem salário fixo, condições de trabalho degradante. Adivinhe o que aconteceu ao dono da fazenda? Ele foi preso? Foi obrigado a pagar indenização aos trabalhadores? Não, ele vai pagar uma multa para o governo. E de onde vem o dinheiro? Dos trabalhadores usurpados. Mais um dinheiro que o povo não verá nem a cor.

4 comentários:

Victória D. disse...

Cada vez mais quero as continuações. Escreva logo um livro e me mande. HAHA.
Adorei a pergunta final... Ficou tão claro e confuso, ao mesmo tempo. Parabéns...

Beijo.

Bia Branco disse...

oieee!
vc escreve realmente bem!
parabens!
precisa so atender interfone!
e a historia da maquina fotografica como vai?
continua em teste?
num some!
beijo

Marcelo disse...

Bom estilo de narrativa. Seu texto tem personalidade, Gustavo. Gostei da maneiro como projeta a ansiedade da personagem para que o próximo seja diferente dos que o antecederam. E a pergunta: Quer saber o que vem depois? foi de colocada de forma tão espirituosa e ainda com a quebra de expectativa... ou não, no contexto.
Parabéns, meu caro. Novo e talentoso... vou te dar um presente pela qualidade do seu texto. Você convenceu este professor enjoado que acha que pouca coisa se aproveita na blogosfera. Dá uma olhada na minha lista de top... coloquei você lá. Você merece, cara.
Parabéns!
Abraços

Jamile Gonçalves disse...

Adorei, adorei, adorei!
Fim magnânimo assim como todo o enredo.
Voltarei mais vezes!
Obrigada pela visita!
;)